A onto-epistemo-lógica da “negação da negação” em Sureśvarācārya
The onto-epistemo-logic of “negation of negation” in Sureśvarācārya
Resumo
Sureśvarācārya (séc. IX), um dos principais representantes da escola da Não-Dualidade (Advaita Vedānta), empreende, no Capítulo 3 de sua obra Naiṣkarmya Siddhi, uma reflexão sistemática em torno das mahāvākyas (“grandes sentenças”) dos Upaniṣads que declaram a nãodiferença ontológica entre a essencialidade do sujeito (Ātman) e a essencialidade da realidade in toto (Brahman). Num contexto de fidelidade à tradição dos debates e de um compromisso com a busca da Verdade (vāda/saṁvāda), Sureśvarācārya enfrenta corajosamente três aporias fundamentais: (i) como viabilizar o conhecimento de um princípio inobjetificável e, portanto, inacessível à funcionalidade instauradora da razão?; (ii) como viabilizar o conhecimento desse mesmo princípio fazendo recurso aos meios de conhecimento tradicionais (pramāṇa), subsumidos pelo pressuposto da objetificação?; (iii) como sustentar, em sintonia com os postulados da escola da Não-Dualidade, que a autoridade tradicional (śruti śabdha), um desses mesmos meios de conhecimento, possa cumprir o papel decisivo no conhecimento desse princípio inobjetificável? Resulta, desse enfrentamento, a enunciação fundamental de Sureśvarācārya: a autoridade tradicional é proponente de uma racionalidade extra-ordinária (vicāra), cujo modus operandi envolve uma instrumentalização igualmente extra-ordinária de outros meios de conhecimento, em especial a
(lógica da) negação (pratiṣedha/abhāva/anupalabdhi). Mais especificamente, essa funcionalidade extra-ordinária da razão instaura um processo de negação sistemática, descrita por Sureśvarācārya
como “negação da negação”, prenhe de implicações propositivas, existenciais e soteriológicas.
Palavras-chave: Advaita Vedānta; Sureśvarācārya; Upaniṣads; Filosofia Indiana
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